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“O vizinho ali da frente é bonitinho, inteligente, tem cara de ser um nerd todo certinho. O daqui do lado direito é roqueiro, faz a minha praia, tem olhos verdes e um sorriso atraente. O da diagonal é fofo, já vi ele entregando flores para a ex, chegando abraçado com a sua avó, passeando com seu cachorro e regando o jardim. O do lado esquerdo também não é de se jogar fora, é charmoso, um pouco mais velho que eu, sai todo dia pra trabalhar. Sabe eu podia amar qualquer um desses, qualquer um mesmo… Mas eu simplesmente não consigo. Não é a gente que escolhe essas coisas, elas simplesmente acontecem. Eu me torturava com a ideia de nunca ter me apaixonado, eu falo tão abertamente sobre tudo, adoro observar as pessoas, desvenda-las e conhecê-las. Mas nenhum cara desses ai de cima e nenhum outro jamais tinha chamado minha atenção… Essa é a parte clichê do texto em que chega um homem alto, fortão e muda todo meu conceito. Mas eu não sou tão clichê assim. As coisas não aconteceram bem desse jeito, apareceu uma pessoa, mas foi um pouco diferente. Meu tal vizinho romântico -aquele que gosta de dar flores- veio até minha porta e tocou a campainha. Isso foi realmente estranho, até hoje não entendi o porquê de ele ter me causado o trabalho de sair do sofá só para atendê-lo. Ele disse que seu cachorro tinha gostado de mim e que ele raramente gostava de alguém -alias, que cantada escrota a dele- e eu dei um sorrisinho amarelo como se não me importasse com ele e suas palavras, mas ele não se tocou e continuou tagarelando, quem disse que mulheres falam demais, é porque realmente nunca teve o prazer –ou a infelicidade- de conversar com esse cara. Ah, admito que só prestei atenção nas primeiras duas frases que saíram da boca dele, e ri mentalmente criticando minha ideia de que poderia me apaixonar por ele, pois ali estava um defeito que de longe não dava pra notar, ficar ao lado dele era tedioso. Mas voltando ao assunto, eu não prestei atenção em nada do que ele disse, pois além de chato, outra coisa mais interessante estava passando atrás dele. Era um menino, magro, alto, pálido, falando assim ele até parece estranho -ta, ele é um pouco estranho- mas também era lindo. Nada de olhos azuis, seus olhos eram castanhos, escuros. Seu cabelo era bagunçado e suas roupas desarrumadas, não que ele se vestisse mal, mas com certeza ele não era vaidoso. Ele parecia estar com pressa, andava rápido e ia tropeçando nos próprios pés. Eu não conseguia parar de olhá-lo, isso estava meio perceptivo, tanto que meu tal vizinho foi embora e eu nem vi. Fechei a porta e entrei. No dia seguinte, marcou 6 horas da tarde e eu fui lá para fora, não me perguntem o porquê, eu só queria um pouco de ar. Então eu vejo aquele tal menino misteriosamente bonito passando pela calçada novamente. Ele era realmente atraente e… Apressado. Andava novamente quase caindo, como se estivesse atrasado. Os dias se passaram, na realidade, duas semanas se passaram e todo dia as 6 da tarde aquele menino passava pela minha rua… Era quarta feira, a campainha tocou, fui bufando como sempre e era ele. Fiquei só olhando pra ver o que ele dizia, não queria dar uma de atirada, ou apenas o fato dele estar tão perto me tirou a capacidade de falar. Ele me perguntou que horas eram -sinceramente, ele não tinha relógio? Tinha mesmo que ir ali só pra me deixar mais atraia pelo seu jeito desconcertado?- por uma estúpida ideia acabou saindo da minha boca “São seis da tarde, oras. Você deveria saber, já que só passa aqui nesse horário.” ele me olhou como se eu fosse de outro planeta, cara, como eu fui burra em ter mencionado isso. Ele sorriu, apenas sorriu e foi embora. Passou uma semana e a campainha toca novamente, só pra fazer uma pequena observação, eram seis da tarde.
- Como você sabe que eu passo aqui sempre às 6 horas da tarde?
Ele era louco? Idiota? Imbecil? Que susto! Nem abri a porta direito e ele já foi dizendo isso, atropelando as palavras como se não conseguisse nem respirar, e depois de uma semana do acontecido, só depois de uma semana ele deu as caras?
- Eu sou muito observadora.
- Te chamei atenção?
- Pra falar a verdade até formigas me chamam atenção.
- Ta me comparando com formigas?
- Não, idiota. Quis dizer que até formigas me chamam atenção, quanto mais um estranho que insiste em passar na frente da minha casa sempre no mesmo horário.
- De onde tirou intimidade pra me chamar de idiota?
Caralho, eu tinha o chamado de idiota, que mania a minha.
- Desculpe.
- Tudo bem.
- Quer entrar?
- Ah, sei lá. Pra que?
- Pra conversar.
Ele entrou, e agora? O que eu iria fazer? Até que sou boa de papo, mas que casa bagunçada eu tinha. Tava tudo fora do lugar e eu, eu estava horrível… Espera, eu me preocupando com a minha aparência? Que novidade.
- Sua casa é bem…
- Bagunçada né, eu sei.
- Não, é bem igual a minha.
- Uma coisa nós temos em comum.
- Antes que você me pergunte, eu passo no mesmo horário todo dia aqui, pois minha casa é bem na esquina e eu tenho fixação pelo número seis e o dez. Então eu sempre tento chegar em casa, antes das 6:10, entende?
- Você é estranho.
- Você também.
- Eu?
- É, uma garota que observa todo mundo que passa na sua rua e ainda sabe o horário dos outros… Você me assusta.
- Te assusto de um modo bom?
- Seus olhos são bonitos.
- Sua boca também.
- Seu cabelo é lindo.
- Seu sorriso também.
- Eu tenho que ir.
- Não vai não.
- Eu to na casa de uma estranha, to elogiando ela e ela me elogiando. Isso é meio fora do normal pra mim.
- Eu prometo não te morder.
- Eu to indo.
- Fica, eu nunca fui de gostar de ninguém e agora com você falando que vai embora, meu coração ta experimentando uma sensação nova.
- Que sensação?
- De sei lá, de querer uma pessoa ao seu lado custe o que custar.
- Essa sensação é boa?
- É ótima.
- Então eu vou ficar, porque você pode me ensinar a sentir isso também.
- Posso?
- É, acho que já ta ensinando. Sua voz, seu cheiro, tudo me faz te querer bem pertinho de mim.
- Seu coração ta apertado?
- Tá.
- Acho que você ta amando.
- Nós estamos amando.”
—
Seis horas da tarde, um estranho faz parte do meu coração. (Ana Carolina)
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“Eu estava quase dormindo ainda, quando minha mãe me ligou e me pediu para ir almoçar com ela, naqueles almoços em família ou sei lá – coisas que eu odeio. Todo mundo só quer saber de fofocar sobre mim e sobre minhas novas namoradas, se já estou noivo ou trabalhando. É tão difícil entender que eu sou um legítimo inútil? Nunca amei alguém, nunca fiz uma faculdade e nunca levei uma garota para almoçar no dia seguinte. Uma cela confortável por esses crimes, por favor – sou humano. Não é ridículo assim ser cafajeste, digo, eu só nunca achei a garota ideal – não que eu tenha procurado uma, mas não canso de dizer a mim mesmo que ainda vou estar conversando com ela, e aí vou perceber “ques olhos lindos”, e “que cabelo maravilhoso”. Tudo bem, talvez eu não fique assim tão gay, mas eu sei que vou saber. Minha mãe me pediu para passar em três lugares antes. Primeiro, no supermercado comprar algumas coisas para o almoço. Segundo, na casa da amiga da minha sobrinha de nove anos, para leva-la. E terceiro, no médico, pegar um exame que ela fez semana retrasada. Fiquei com medo, porque ninguém me avisara sobre esse exame. Eu sou sempre o último a saber de tudo mesmo, não é como se fosse novidade, mas, e se fosse algo sério? É da minha mãe que estamos falando aqui. Eu não estava nada com clima de conversar com alguém, e justo aí, quando eu estou no supermercado, uma garota loirinha, com os olhos castanhos meio esverdeados, um pouco baixinha, com um andar meio desajeitado e digitando no celular enquanto conduzia o carrinho com apenas uma Nutella, do tamanho “enorme”, um Doritos, do maior, também, três latinhas de Coca-Cola e uma canequinha com bolinhas coloridas estampadas, tromba em mim enquanto passa. Eu estava bem lendo a embalagem do azeite, porque tinha que ser do extra virgem, era o único que minha mãe usava desde… sempre. Ela passou meio correndo, não sei exatamente se me viu ali, mas o carrinho dela bateu em mim e eu xinguei um palavrão. Não exatamente pela dor, o carrinho estava bem leve, mas pelo susto, e é claro, falta de educação de quem quer que tenha sido. Aí eu me virei, e eu não sei exatamente como aconteceu… Ela me olhou, também. A gente não disse nada, só ficamos nos olhando por uns quarenta ou cinquenta segundos – sei que foi muito tempo. Depois daquilo já parecer bem constrangedor, ela disse “Sinto muito, eu sou meio distraída. Me desculpe, mesmo.”, e a voz dela era tão apressada, que engolia algumas letras, talvez até palavras. Ela falava meio histericamente, e depois, ela sorriu de leve, como se me quisesse ver sorrindo também para aliviar a culpa. Eu sorri. “Oi”, foi tudo o que eu consegui dizer, e até hoje eu me lembro disso e fico pensando como devo ter parecido idiota. Aí eu completei “Meu nome é Gabriel, e ah… Sem problemas.”, e ela sorriu de novo. “Legal…”. Depois de uns vinte segundos da gente se encarando outra vez, ela olhou para o azeite na minha mão e disse “Ah, eu acho que você tem alguns problemas em escolher azeites. Você não pode pegar o que tem isso escrito na embalagem, quer dizer que a qualidade não é tão boa. Espera, esse aqui é bem melhor. E eu reparei que está querendo o extra virgem, porque aqueles comuns estão logo ali. Você tem alergia, ou é só frescurinha mesmo?” Dessa vez ela falou mais devagar, com calma, e riu em seguida, em um tom de brincadeira, sem querer me ofender. Deu a volta pelo carrinho e pegou um vidrinho de azeite no fundo da prateleira, me dando e dizendo “Por nada.”, enquanto sorria sem parar. Um cara qualquer, que estivesse procurando alguém, uma namorada ou até ou futuro, teria investido naquela garota. Ela parecia tão esperta, era linda e muito simpática. Mas eu não sou um cara qualquer, então respondi “Não é pra mim. É para a minha mãe.”, e ela pareceu surpresa. Eu não queria muito papo, não sei direito por que, mas eu só a deixei ir. No meio daquele supermercado enorme, ela desapareceu entre as fileiras de frios, enquanto eu ia direto ao caixa. Depois que eu estava já indo embora, pensei que nem ao menos perguntei o nome dela, e voltei. Não sei por que, também, mas voltei. Queria ver de novo aqueles olhos enormes e fascinantes, e perguntar o motivo de algumas olheiras. Queria perguntar se ela conhecia azeites, e se tinha um namorado. Não tem exatamente um motivo, mas dei uma volta inteira no supermercado até encontrar ela. Estava digitando outra vez, e guardou logo o celular a me ver. “Então… Oi, Gabriel.”, e ela riu. Ah… Que risada era aquela? Eu poderia casar com aquela garota só para ouvir a risada todos os dias, para sempre. Eu estava meio ofegante por ter corrido, e nem tinha mais um carrinho, estava claro que tinha voltado. Não sei se ficou claro que era por ela, mas eu não queria soar como idiota. “Hm, você nem me disse seu nome.” “Clara… Você parece cansado.” “Sério?”, e eu ri também. Aí a gente começou a se aproximar, e ela perguntou se eu estava correndo, se eu já tinha terminado as compras ou se tinha perdido meu carrinho. Eu estava contra a parede, porque me sentia um idiota agora. Por que exatamente eu tinha voltado? Nem eu sabia. “Você digita tanto…”. Sei que soou curioso e intrometido demais, mas ela sorriu quando eu disse isso. “Você pergunta tanto… E não responde nada.”, aí eu ri e disse que era justo. Ela foi bem direta, e perguntou se eu queria acompanha-la até o cinema um dia desses. Eu aceitei, e passei meu telefone para ela. Primeiro erro! Nunca dê seu telefone a uma garota, isso a deixa no controle, e com ela no controle, você só se ferra. Sempre.
As coisas começaram a complicar depois de uns seis, sete dias. A ligação que nunca chegava. O que tinha de errado comigo? Ela percebera que eu era um idiota, sem nada de especial para lhe oferecer? Minha mãe estava bem, e eram só mais alguns exames de rotina, pelo que me disseram depois. Me preocupei atoa, e também atoa voltei por aquela garota. A questão é que agora eu pensava demais nela, como se a gente já tivesse tido alguma coisa. Como se a gente já tivesse sido namorado, melhor amigo e ainda aquele primo super legal que não te deixa em paz. Como se… fosse ela, a garota. Depois de umas quatro semanas, a ligação finalmente chegou. Ela estava chorando, e sussurrou um “Estranho do supermercado?”, e eu perguntei “Você tá bem, Clara?” “Você lembra o meu nome… Uau.” E aí ela sorriu, deu para senti-la sorrindo de onde quer que ela estivesse falando. Ela continuou: “Eu sei que prometi te ligar, e prometi um cinema, um jantar ou só um passeio por aí, uma corrida no parque… Eu sei, tá? Me desculpe, só estou te ligando agora, porque no meu celular o nome Estranho do supermercado me soou atraente, e aí eu me imaginei trocando mensagens estúpidas com você, beijando você, e te ensinando a escolher azeites. Quero você.” “Você lembra meu nome, pelo menos?” Eu me sentia meio ofendido, era como se ela estivesse meio bêbada, e eu não duvido que estava. “Lucas? Caio? Matheus? Ah… André, não é?” Legal, ela conhecera mais uma dúzia e sei lá quantos estranhos no supermercado. “Você tá bem?”, eu perguntei de novo; não sei por que, mas eu me sentia no dever de cuidar daquela garota. “Não. Absolutamente não. Não, não, não.” Ela xingou, e deu para ouvir um choro mais alto um pouco, um soluço forte. “Cansei de dizer que estou bem! Ninguém entente, ninguém nunca vai entender, estranho. Você pode entender uma coisa dessas?” “Sinceramente, não. Onde é que você está?”, eu perguntei disposto a ir até o outro lado do planeta, se preciso para vê-la outra vez. “Eu não sei. Eu estou aqui, em um bequinho pouco amigável, mas eu quero ficar sozinha. Sobre tudo que me contam sobre a morte àqueles que não são bons, eu diria que estou no inferno. Pode ser, essa dor que estou sentindo não é nada divino.” “Alguém bateu em você?” “Dor por dentro, estranho. Me sinto um lixo.” “Calma, me dá o endereço. Vou aí agora.”. Aí ela me passou a rua, e eu resolvi nem comentar que era atrás de um bar que eu fora uma vez. Coisa da pesada, não é lugar para pessoas do bem. Para garotas meigas, fofas e comportadas irem chorar por algum garoto. E é claro, eu sabia que era por algum garoto. Sempre é.
— Oi, estranho — ela disse deitada no chão, quando me viu chegar.
— Clara! — era tudo o que eu conseguia dizer. Nem parecia a mesma garota do supermercado, dessa vez ela estava com uma garrafa de tequila na mão, uma lâmina prata suja de vermelho no chão ao seu lado e sangue saindo e escorrendo de seus braços. Não consegui deixar de olhar.
— Ah, não se assuste. Iria me afogar em uma banheira, mas eu acho que deve ser ruim demais morrer afogado, não acha?
— Quando fez isso? Depois que falou comigo?
— Não, foi antes.
— Ah, Clara. Vem aqui. — eu a levantei, mas ao ver que ela parecia tão pouco disposta a andar, carreguei ela e a levei até meu carro. — Para onde eu posso te levar?
— Lugar nenhum. Tanto faz.
— Te assustaria te levar para a minha casa?
— Ah… Você vai se aproveitar de mim? Sem problema. Tanto faz, não posso me defender mesmo.
— Claro que não! Onde fica sua casa?
— A sua soa melhor.
A viagem era bem longa, mais de uma hora, e a rua estava bem movimentada — era sexta-feira em São Paulo. Então eu pensei que ela poderia dormir um pouco até lá, e a deitei no banco de trás. Chegando em casa, eu levei ela até a minha cama, a cobri com dois cobertores e troquei toalhas para o sangramento. Passei todos os remédios convenientes, e fiquei ali, sentado ao lado dela, olhando aquele rosto curiosamente perfeito, e desejando ouvir a risada dela outra vez. Não sei quando adormeci, mas sei que quando acordei, só havia um bilhete na cama, e estava escrito: “Eu me lembrei, Gabriel. Seu nome… Eu poderia colocar aqui toda a minha história, para te explicar por que estava naquele estado desprezível ontem à noite quando te liguei, mas você já deve saber: garota ingênua, garoto cafajeste; garota boba, garoto se aproveita; garota se apaixona, garoto vai embora; É sempre o mesmo clichê, acho que eu nunca aprendo mesmo. Você foi muito legal comigo, parece mesmo ser alguém que vale a pena, e por isso mesmo eu não quero estragar a sua vida comigo. Obrigada, viu? E caso ainda queira contato, meu número está no seu celular, mas eu não coloquei meu nome, então acho que você vai ter que pensar um pouco. Já seu número… eu apaguei do meu. Agora você está no controle, rsrs. Não vou esperar ligação nenhuma, mas se ela chegar, eu ficarei muito feliz, acredite. Você nunca mais vai me ver daquele jeito, é uma promessa. A estranha do supermercado.”. No mesmo instante, procurei meu celular, que estava no criado ao lado da cama, e procurei por “Estranha do supermercado”. Nada. “Clara”, também nada. “Garota do azeite” também não funcionou, assim como “Mulher da minha vida”, “Alma gêmea” ou “Linda do supermercado”. Nada, nada. Aí eu procurei entre todos os contatos, o que não foi uma tarefa fácil, admito, e achei na letra M: Merdas, problemas e tudo que pode te fuder. Quando eu estava indo ligar, ainda apareceu uma janelinha na tela: “Pense bem”. Uau, ela arquitetara um ótimo plano, nem eu sabia fazer isso no meu celular. Chamou, chamou, chamou. Cinco vezes, e então atendeu uma voz conhecida. Não a voz chorando, que me ligara na noite passada. Atendeu a voz daquela loirinha linda do supermercado. Atendeu uma voz que fala desesperadamente e come letras, talvez até palavras. Uma voz animada, feliz. Eu percebi então, que era assim que aquela voz tinha que permanecer. Era assim que eu queria ouvi-la pelo resto da minha vida, e principalmente, percebi que eu queria ouvi-la pelo resto da minha vida. Percebi que eu precisava daquela voz, daquela risada, e daquela garota. Precisava cuidar dela. Atendeu, e perguntou “Estranho do supermercado?”.”
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“(03/04/2004)
- Alô.
- Ele me deixou, como os outros, como você disse que ele faria.
- Eu te avisei.
- Não diga apenas isso, me faz sentir culpada por sempre ignorar suas proteções.
- Espera ai, você ta chorando? Eu vou quebrar a cara dele.
- A culpa não foi dele, foi minha culpa, sempre acredito nos caras errados.
- Não se culpe. Um dia você vai achar um idiota que te faça bem.
- Assim como você?
- Ou até melhor…
E mais uma vez eu não o escutei, ele era meu melhor amigo e eu deveria dar ouvidos a ele, sabe, ele é como minha mãe, tudo que ele diz, realmente acontece. Ele me alerta, me protege e eu sempre tão idiota e teimosa…
(03/06/2004)
- Oi.
- Você sumiu.
- Fiz falta?
- Idiota, você sabe que sim. Qual é a graça de sumir de mim?
- Te ver bravinha talvez.
- Você me ama.
- Um pouqu… Amo nada!
- Faz um favor?
- Diga.
- Não some mais não, viver sem meu melhor amigo é difícil…
(03/10/2005)
- Não vai, você pode morar na minha casa.
- Eu tenho que ir, minha mãe nunca me deixaria aqui.
- Promete que não vai me substituir na sua cidade nova? Promete que não vai conhecer outra melhor amiga? Promete que não vai me esquecer?
- Te esquecer? Pera ai, quem é você mesmo? Mariana? Oi? Quem é Mariana?
- Ridículo você e essas suas brincadeiras.
- Mari, eu tenho que ir, me deseje boa viajem…
Fim da ligação.
- Eu te amo.
(03/12/2006)
- Segundo natal que você passa sem mim né?
- Bom pra mim.
- Você sempre da um jeito de levar tudo pra brincadeira, Lucas.
- Eu sempre fui assim, né? Quando a gente tinha 5 anos eu já adorava zoar com a sua cara. Nada mudou, viu pequenina?
- Seu amor por mim mudou?
- Mudou um pouco, acho que aumentou.
(03/05/2007)
- To com saudade, faz anos que a gente não se vê, só os telefonemas não estão matando minha vontade de te ter aqui pertinho de mim.
- Meiga.
- Eu sou.
- Mentirosa.
- Te amo.
- Eu também.
(03/06/2008)
“Eu to com saudades dele e dessa vez é diferente. Sabe, ele sempre foi meu confidente, o meu amigo, só meu. E agora, quando escuto a voz dele um arrepio percorre todo meu corpo e eu acho, bem, talvez seja besteira minha, mas… Eu o amo, talvez mais do que amava antes, talvez mais do que um irmão.”
(03/04/2009)
- Lucas, se ouvir essa mensagem me atende, preciso te contar uma coisa, ou apenas ouvir sua voz.
(03/05/2009)
- Faz um mês que você não atende minhas ligações, o que ta acontecendo?
(03/06/2009)
- Lucas.
- Mariana.
- Sem brincadeiras agora. Qual a razão de estar me ignorando?
- Tenho que te contar uma coisa… Eu to namorando.
- Tenho que desligar.
(03/07/2009)
“Ele ta namorando, justo quando ia contar tudo o que eu tava sentindo, ele ta namorando, uma vadia, uma vaca que nem sabe nada sobre ele. Ela não consegue fazer ele sorrir como eu faço, aposto que ela é feia, gorda, chata e sem papo. Meu Deus, eu o perdi.”
(03/08/2011)
- Mari, terminei com ela. To sozinho, estou indo te visitar daqui um mês.
- Te espero, fica bem…
(03/09/2011)
A campainha toca.
- Oi mari, minha pequena, que saudade de você.
- Lucas, a gente precisa conversar.
- Meu ouvido é seu.
- Então, você sempre diz, meu ouvido é seu, meu ombro é seu, mas porra… To com tanta necessidade de você, não sei o que ta acontecendo. Mas… E seu coração?
- Meu coração, o que tem ele?
- Tem dona?
- Tem.
- Hm.
- Ela é linda.
- Que bom.
- Ela é toda bravinha e ciumenta.
- Que bom.
- Ela está na minha frente.
(03/10/2011)
“Querido diário, to namorando. Sim, o Lucas agora é só meu”.
(03/11/2011)
A gente tava andando, era nosso primeiro dia como namorados e ele pediu pra eu esperar ele na livraria. Disse que ia comprar um café e que já voltava. Ele me deu um beijo, me olhou e sorriu. Mas ele não voltou, ele se foi…
(03/11/2012)
Eu sinto falta dele, como jamais senti. Já faz um ano que aquele acidente idiota levou a melhor coisa que tinha me acontecido. E eu de alguma forma ainda o espero, fecho os olhos e o vejo voltando pra casa, com um café quentinho na mão. Eu deito e o vejo chegando e dizendo “Mari, cheguei minha pequena”. E talvez seja pra sempre assim, eu sempre vou o esperar, mesmo sabendo que ele não vai voltar.”